domingo, 4 de outubro de 2015

A CIDADE SE ENCONTRA NA CICLOVIA DA PAULISTA

por LEÃO SERVA

A Paulista foi palco neste domingo de um grande espetáculo de cidadania e congraçamento. Não é Natal, nem Ano Bom, não tinha comício ou protesto, Marcha com Deus ou Parada LGBT: foi só um domingo para amar o próximo e fruir a cidade. Paulistanos da Cantareira a Parelheiros, de Cidade Tiradentes a Perus e do Centro, ricos e pobres, “coxinhas” e governistas. A todos, o fechamento da avenida proporcionou uma festa.

E o trânsito? Apenas o normal para um domingo de festa. Repetiu-se o que tinha acontecido oito dias antes no fechamento do Minhocão sábado à tarde: nada! O discurso carro-cêntrico dizia que a cidade viraria um caos com as artérias fechadas. Ao final, a montanha pariu uma minhoquinha. Avisados, os motoristas buscaram alternativas e o trânsito ficou como sempre.

Em seus deslocamentos, as pessoas fazem comparações econômicas de vantagens e desvantagens entre as opções disponíveis: se custa mais ir de carro, vão de ônibus; se custar a mesma coisa, preferem carro que é mais confortável; se tudo ficar caro, escolhem outro destino. Para quem usa o automóvel, a escolha dos caminhos é decidida por cálculos em que o tempo é a unidade de valor: se a Rebouças congestiona, pega-se a Bela Cintra ou a Nove de Julho. Se todas ficarem lentas, dá-se outro jeito (ônibus ou muda o destino).

Chama-se “princípio de Wardrop” a conta que leva todos os caminhos para um certo destino se equilibrarem quanto à demanda de carros e consequentemente tempo de deslocamento. É essa a lógica que norteia o uso do aplicativo Waze: de tempos em tempos, as diferentes rotas para os grandes destinos tendem a se equalizar.

Com a abertura da Linha 4, Amarela, do metrô, a Paulista se tornou uma opção de lazer aos moradores desde as pontas de todas as outras linhas de trilhos urbanos. Por isso ela lota de gente passeando todos os domingos. Estacionar o carro é difícil e caro. As pessoas reservam um tempo e um custo que se dispõem a gastar para obter a satisfação de um passeio na região mais charmosa da cidade. Se ir de carro é penoso ou proibido, irão de metrô.

Não estamos inventando nada, nem mesmo as polêmicas: também em Nova York, os carro-dependentes resistiram quando a administração do conservador Michael Bloomberg fechou a Times Square para os carros (lá, 7 dias por semana). Mas em três semanas o trânsito estava como sempre esteve. E a cidade ganhou um bonito calçadão com mesas e cadeiras nas ruas. Casos semelhantes aconteceram em Paris, Londres, Estocolmo etc.

Aqui vamos começar aos sábados, no Minhocão, e domingos, na Paulista, a aumentar o espaço para os humanos e reduzir o das máquinas.  Logo vamos falar de outros dias e outras vias.


HÁ UMA PEDRA NA CICLOVIA

Sob o ponto de vista institucional, a ciclovia da av. Paulista tem buracos que poderão dar trabalho ao prefeito Haddad no ano de sua reeleição, quando forem julgadas as contas deste ano: a Prefeitura não submeteu corretamente ao Tribunal de Contas do Município (TCM) documentos sobre gastos na implantação da via.

Pelo menos é o que entendeu o conselheiro Edson Simões, que na quinta-feira enviou à Secretaria Municipal de Transportes, responsável pela realização, um http://www.tcm.sp.gov.br/painelnoticias/principal/2015/2127-15.pdf ofício com tom bastante duro, listando os documentos que deveriam ter sido enviados e não foram: “Está prevista inauguração das obras no próximo dia 28 de junho de 2015. Contudo, estranhamente este Tribunal ainda não recebeu nenhuma medição”, diz um trecho com as letras destacadas em tom mais forte.

Ontem, enquanto os ciclistas esperavam a chegada do prefeito na Paulista, o site do TCM tinha na sua página principal uma http://www.tcm.sp.gov.br/painelnoticias/principal/2015/59_15Ciclovia.html chamada para o caso.

O despacho deu 24 horas para o secretário Jilmar Tatto enviar a papelada documentos. Sexta-feira, o TCM opera em ritmo lento, só saberemos se a Prefeitura cumpriu o prazo ao longo da semana que vem. 



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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 29/6/2015

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